Marcas da tragédia neste depósito de pessoas inundadas

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Marcas da tragédia neste depósito de pessoas inundadas

Mensagem  Horbith em Qui Jan 17, 2008 12:55 pm

Marcas da tragédia neste depósito de pessoas inundadas

Carências são muitas. Como define o subprefeito de Cidade Tiradentes: “Temos um depósito de pessoas. Faltam opções de educação, saúde e áreas de lazer. Há bairros aqui com pessoas que nunca foram ao cinema”

Por Antônio Augusto

A Zona Leste é a segunda maior área geográfica da cidade, com 326,8 km². Perde apenas para a Zona Sul, com seus 723,8 km². No entanto, ganha no quesito densidade populacional: nenhuma outra região concentra número tão grande de habitantes. Segundo estimativa da Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla), vivem hoje na Zona Leste cerca de 4.040.000 pessoas, ou 37% da população da Capital, de 10.995.000. Isso significa que de cada dez paulistanos, praticamente quatro habitam aquela área.

Tal proporção acarreta problemas equivalentes quando o assunto é aplicação de políticas públicas. Das onze Subprefeituras da Zona Leste, responsáveis pela implantação dessas políticas, a maioria se depara com problemas semelhantes, sobretudo nas áreas mais periféricas: ocupação desordenada do solo, loteamentos irregulares, enchentes e alagamentos em razão da inexistência de infra-estrutura urbana.
Cesar Diniz/AE
O retrato da maior parte da Zona Leste: ocupação desordenada do solo, enchentes, alagamentos e quase nenhuma infra-estrutura

Mas há bairros na Zona Leste em que os padrões de qualidade de vida e a presença de infra-estrutura se assemelham aos bons locais da cidade. Nessa categoria estão bairros como Mooca, Penha e Tatuapé. Aí, de acordo com as Subprefeituras, as dificuldades são de outra ordem: oferta insuficiente de serviços de saúde e educação, presença de camelôs e complicações de tráfego em vias urbanas.

Ocupação ilegal
Com 45 km² e 382 mil habitantes, conforme o censo 2000 do IBGE (cálculos da Subprefeitura estimam hoje 500 mil), São Matheus padece principalmente dos males da ocupação desordenada e irregular do solo. Quase metade da população local habita ilegalmente esses espaços, onde a taxa de infra-estrutura é próxima de zero. “Temos mais ou menos 170 loteamentos irregulares, onde moram 200 mil pessoas. São áreas consideradas rurais, não urbanizadas. É um problema grave”, revela o subprefeito Clóvis Luiz Chaves.

A solução, diz ele, está na operação conjunta com a Secretaria de Habitação e o Ministério Público: “A Secretaria já prometeu regularizar ao menos parte dos loteamentos.” Enquanto isso não ocorre, a Subprefeitura tem executado obras de melhoria das estradas e vias de acesso aos loteamentos.

Outro problema de São Matheus são as enchentes em áreas de risco perto dos 40 córregos da região. Para atenuar, segundo Chaves, é feita a limpeza cotidiana dos seis piscinões já construídos na região: “Não estamos fazendo grandes obras”.
Na vizinha Itaquera, ao norte, a Subprefeitura se defronta com questões parecidas. Com cerca de 500 mil habitantes, parte de seus 54,3 km² é formada por áreas de risco, em razão da ocupação irregular de terrenos às margens dos córregos. Para a Subprefeitura, a solução definitiva está na criação de uma política de habitação em escala nacional, de maneira a beneficiar regiões problemáticas como aquela.

O sistema viário da Zona Leste tem merecido atenção especial do poder público. Em março agora deverá estar pronto o túnel da Radial Leste, interligando as radiais antiga e nova. Também foram retomadas as obras do complexo Jacu-Pêssego, que na primeira fase ligará São Miguel a Guarulhos. No futuro, fará a conexão da rodovia Ayrton Senna com São Paulo. Outra obra destacada pela Subprefeitura é a construção da ponte a partir da estação Corinthians/Itaquera rumo a avenida Águia de Haia. Com a ponte, estará feita a ligação da avenida Carvalho Pinto com a marginal Tietê.
Patrícia Cruz/LUZ
Xavier, de Cidade Tiradentes
Evangelista, de Vila Prudente
Nílton Fukuda/AE
Estevam Galvão, de Guaianases

Carências radicais
Na também vizinha Cidade Tiradentes, com 15 km² e cerca de 280 mil habitantes, o subprefeito Arthur Xavier faz uma diagnóstico radical para as dificuldades de infra-estrutura, além da carência de serviços de educação e saúde: “Temos um depósito de pessoas. Faltam opções de educação, saúde e áreas de lazer. Há bairros aqui com pessoas que nunca foram ao cinema”, afirma Xavier, que assegura estar tentando resolver parte dessas carências.

Obras de pavimentação, conservação de vias públicas, canalização e iluminação também servem como solução parcial. Mas o subprefeito ganha mais ânimo quando menciona outras duas obras: a entrega do hospital Cidade Tiradentes prevista para agosto deste ano, e a chegada, em 2008, do Expresso Cidade Tiradentes, um corredor exclusivo de ônibus com 32 km de extensão, ligando o parque Dom Pedro à região.

Ainda no mapa da Zona Leste, as vizinhas Guaianases e Itaim Paulista somam 41 km² e abrigam juntas cerca de 780 mil habitantes. Ambas compartilham de problemas idênticos: áreas de risco, enchentes e alagamentos. O subprefeito de Guaianases, Estevam Galvão de Oliveira, diz que esses problemas, os mais graves, estão sendo enfrentados: “Eles necessitam de investimentos em obras nas encostas, rios, córregos e vales. Em algumas áreas há iminência de deslizamentos. Estamos realizando obras de canalização e pavimentação. Em um mandato muita coisa será feita e mudará a fotografia de Guaianases”.

No Itaim Paulista, para resolver parte da questão da ocupação irregular nas áreas de entorno dos córregos, a Subprefeitura adotou o Projeto Fluir, elaborado pela arquiteta Rosane Segatin Kekpe, funcionária municipal de carreira. O plano permite a substituição das construções irregulares por áreas de lazer e praças, e a transferência das famílias de renda insuficiente para casas construídas, a preços accessíveis, em áreas verdes disponíveis nos conjuntos da CDHU das proximidades.

Em São Miguel, com área de 24,3 km² e mais de 378 mil habitantes, segundo a Subprefeitura, a falta de médicos nos serviços municipais de saúde, o principal problema, será solucionado através da lei 318, já aprovada, que permite a contratação de profissionais junto às organizações sociais, sem a necessidade de concurso público.

Na Subprefeitura de Ermelino Matarazzo estão sendo feitos investimentos nas áreas de educação e saúde, com a construção e reforma de escolas e postos de atendimento. Na infra-estrutura, há estudos para a canalização e assoreamento de córregos, como o de Mongaguá e Ponte Rasa. Outra obra definida como urgente é a construção de galerias de águas pluviais. Na vizinha Penha, a Subprefeitura se considera numa área privilegiada e com problemas ocasionais, como enchentes e áreas de risco, combatidos com “vigilância constante”.

Em Vila Prudente, com 33,3 km² e cerca de 525 mil habitantes, segundo a Subprefeitura, a retomada das obras da avenida Jacu-Pêssego servirá para reduzir o problema do trânsito pesado de caminhões nas avenidas Salim Farah Maluf e viaduto Grande São Paulo. No distrito de Sapopemba, as áreas de risco estão sendo mapeadas para posterior execução de obras habitacionais, em conjunto com a CDHU.

Na Subprefeitura de Aricanduva, com 23 km² e 350 mil moradores, o principal problema apontado são as enchentes em pontos isolados do córrego Aricanduva. Além dos serviços rotineiros de limpeza, a Subprefeitura estuda um projeto de desapropriação das áreas inundáveis da bacia do córrego.

Em grande parte, as soluções para os problemas mais graves da Zona Leste só virão a médio e longo prazo. É necessário um amplo programa de investimentos em obras de infra-estrutura e serviços urbanos, conseqüente e sem interrupções provocadas por interesses políticos de momento. Ou como observa Clóvis Luiz Chaves, subprefeito de São Matheus: “Temos duas realidades diferentes aqui. Uma área com comércio forte e vida estruturada e outra com gente vivendo em condições subumanas. A curto prazo, só podemos atenuar a situação. A solução exigirá muitos investimentos. Esse é o maior desafio da atual administração”.

Fonte: Diário do Comércio

Horbith
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